Caso aplicado · 2014-2025

De 98,1% para 74,8%

Hospital e Maternidade Maringá, no Paraná. No mesmo período, um hospital-controle ficou entre 94,2% e 96,6% de cesárea.

Centro cirúrgico visto de longe, com a equipe em volta da mesa e um painel de verificação aceso acima dela.
A via cirúrgica não é o problema. Ela virar o caminho padrão é.
98,1%
linha de base em 2014: quase toda gestação terminava em cesárea
74,8%
ao fim do período, no Hospital e Maternidade Maringá
104.272
nascidos vivos analisados, classificados pelos grupos de Robson
95,4%
linha central do hospital-controle, que não participou do programa

A carta de controle

707580859095100fase 01fase 02início do Parto Adequadofim da atuaçãoCL 96,08UCL 99,13LCL 93,02CL 84,48UCL 95,10LCL 73,8602468101214Amplitude móvel201420152016201720182019202020212022202320242025DataCLUCLLCL

% de partos por cesárea · carta I-MR, individuais e amplitude móvel

Mudança de linha de base em 2018

fase 0196,08%fase 0284,48%11,59 pontos percentuais de queda na linha central · % de partos por cesárea

Pontos seguidos do mesmo lado da linha central. O processo mudou de patamar — não é oscilação, é nível novo.

Como o ponto de corte foi encontrado

  • Ensemble de detecção de ponto de mudançaPELT com custo l2, clinear e normal, mais a regra de deslocamento do IHI e os pontos fora de 3σ, votando juntos: fronteiras em 2018 e 2024.
  • Teste de PettittNão-paramétrico, independente do anterior e baseado em postos: quebra em 2018, magnitude 10,7 pontos percentuais.
  • Deslocamento (DE) sobre a base única7 pontos consecutivos abaixo da linha central de 88,35% — o sinal que diz que o processo mudou de patamar, e não que oscilou.
  • fase 01 · Base de 4 pontos — limites provisórios (o mínimo do IHI para limites definitivos é 20).
  • fase 02 · Base de 8 pontos — limites provisórios (o mínimo do IHI para limites definitivos é 20).

    A carta é uma I-MR, a que o método escolhe para medida contínua com um ponto por período. Os limites saem da amplitude móvel entre anos consecutivos, não do desvio-padrão da série: é isso que separa a variação de rotina da variação entre patamares.

    A carta tem duas linhas de base porque o patamar mudou. Até 2017 o serviço operava em 96,08%, com variação de rotina entre 93,02% e 99,13%. De 2018 em diante a linha central cai para 84,48%, com limites entre 73,86% e 95,10% — onze pontos e meio abaixo, e uma variação de rotina três vezes maior.

    Dentro de cada fase não há sinal nenhum: os dois períodos são estáveis nos seus próprios níveis. Essa combinação — estabilidade dos dois lados, patamares diferentes — distingue mudança de sistema de uma sequência de resultados bons. Contra a base antiga os mesmos dados acusavam tendência de oito pontos e dois pontos fora dos limites; eles mediam a distância até um patamar que já não existia.

    O desenho não escolheu a fronteira de 2018: o ensemble de detecção do FastQI e o teste de Pettitt, que não compartilham método, apontam o mesmo ponto. Quem a aplica é sempre quem conduziu a intervenção — o produto sugere e nunca refaz limite sozinho. As duas bases têm 4 e 8 pontos, abaixo dos 20 que o IHI pede para limites definitivos.

    O hospital-controle, na mesma escala

    0255075100início do Parto Adequadofim da atuação201420152016201720182019202020212022202320242025Maringá 80,9%Controle 95,0%SUS 53,2%
    • Maternidade Maringá
    • Hospital-controle
    • Referência SUS
    • % de partos por cesárea

    A Maternidade Maringá sai de 98,1% em 2014 e chega a 74,8% em 2024, o menor valor da série. O hospital-controle começa em 95,6% e termina em 95,0%, e nos doze anos fica sempre entre 94,2% e 96,6%.

    A atuação terminou em 2023. Em 2025 a taxa da Maternidade Maringá voltou a 80,9% — o resultado é do sistema, e sistema que deixa de ser mantido volta ao que era.

    % de partos por cesárea, por ano.
    AnoMaringáControleSUS
    201498,195,657,5
    201596,394,253,4
    201695,296,057,0
    201794,795,057,4
    201892,495,160,2
    201988,096,361,5
    202086,594,566,1
    202183,396,671,1
    202284,794,866,4
    202385,396,568,7
    202474,895,359,1
    202580,995,053,2

    O mesmo teste nas três séries

    • Maternidade MaringáMudança de patamar em 2018linha central 96,08% → 84,48%

      O ensemble de detecção e o teste de Pettitt, que não compartilham método, apontam o mesmo ponto. A regra de deslocamento do IHI acusa sete pontos seguidos abaixo da linha central.

    • Hospital-controleNenhuma mudançalinha central 95,41%

      Nem o ensemble nem o Pettitt encontram quebra, e nenhuma regra do IHI dispara: doze anos com 100% dos pontos sob controle, em variação de rotina entre 91,90% e 98,92%.

    • Referência SUSSem quebra confirmadalinha central 60,96%

      O ensemble propõe 2018 e o Pettitt não confirma. O único sinal é uma tendência ascendente de sete pontos entre 2015 e 2021 — o mesmo intervalo em que a Maternidade Maringá caiu 13,1 pontos percentuais.

    O detector não encontra mudança de patamar onde não houve intervenção, e o que ele encontra na referência nacional aponta para o outro lado. Essa diferença separa "o indicador caiu" de "o indicador caiu por causa disto". No período em que a linha central da Maternidade Maringá desceu de 96,1% para 84,5%, a do hospital-controle ficou em 95,4% e a referência do SUS subiu.

    O ponto de partida

    Em 2014, 98,1% dos partos do Hospital e Maternidade Maringá foram cesáreas. A cirurgia tinha deixado de ser a exceção e virado o procedimento padrão.

    O número não era desconhecido: a instituição o media, informava e auditava. Faltava lê-lo como processo — e sem isso não há o que mudar, só o que reportar.

    O programa

    O Hospital e Maternidade Maringá participou da Fase 2 do Projeto Parto Adequado, conduzido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar em cooperação técnica com o Hospital Israelita Albert Einstein e o Institute for Healthcare Improvement. A Fase 2 correu de maio de 2017 a maio de 2019, com 108 hospitais e 60 operadoras de planos de saúde. A operadora parceira foi a Unimed Regional Maringá.

    O método é o do IHI: diagrama direcionador, ciclos PDSA em escala crescente, sessões de aprendizagem entre as equipes e relatório mensal de indicadores. A população-alvo saiu da classificação de Robson, grupos 1 a 4 — as gestantes cujas características obstétricas favorecem o parto vaginal.

    A Fase 2 mediu resultado e equilíbrio na mesma planilha. Ao lado do percentual de partos vaginais entraram a admissão em UTI neonatal, os eventos adversos por mil nascimentos e a satisfação com a equipe e com o hospital. O indicador de equilíbrio existe para uma pergunta só: o que piorou enquanto isto melhorava.

    A carta de controle declara a mudança de patamar em 2018. O ensemble de detecção e o teste de Pettitt chegaram nesse ponto sem nenhuma informação sobre o programa, em curso ali desde o ano anterior.

    Por que existe um hospital-controle

    Comparar antes e depois responde pouco: taxa de cesárea sobe e desce por motivos alheios ao que se fez ali dentro. Por isso a análise acompanha um segundo hospital, sem intervenção, no mesmo período e na mesma base.

    É a diferença entre dizer "melhorou" e mostrar que a melhora não aconteceu junto com o resto do país. A linha central do controle é 95,4%, do primeiro ao último ano.

    A assinatura clínica: Grupo 3 de Robson

    A classificação de Robson separa as gestantes em dez grupos, e é ela que permite comparar maternidades sem comparar populações diferentes. O Grupo 3 reúne as multíparas sem cesárea prévia, em trabalho de parto espontâneo. A boa prática internacional espera menos de 5% de cesárea ali.

    A mudança de prática aparece ali com mais clareza, porque quase não há justificativa clínica para a via cirúrgica. É a assinatura do caso. Se o número cai no total e não cai no Grupo 3, o que mudou foi o perfil das pacientes, não a prática.

    O que o caso mostra

    Que um indicador obrigatório, medido e auditado por anos, continua no mesmo valor até alguém tratá-lo como processo. E que, tratado assim, a queda aparece em cem mil nascimentos, não numa amostra.

    E que o resultado não veio de tecnologia nova. Veio de vontade de mudar, de método para medir a mudança e da necessidade clínica de fazê-la. É o que esta empresa faz.

    Fonte

    SINASC/SVSA-MS · classificação de Robson · n = 104.272 nascidos vivos · Hospital e Maternidade Maringá, CNES 2587343, contra um hospital-controle, 2014-2025. Participação no Parto Adequado: ANS, Parto Adequado — a trajetória de 2015 a 2023, Anexos A e B.

    Relato

    Em breve: a condução do trabalho contada em primeira pessoa — a equipe de melhoria, as mudanças testadas e o que terminou em 2023.

    Quem conduziu

    Felipe Sá Ferreira conduziu o trabalho: ginecologista e obstetra, mestre em Saúde Pública pela USP e especialista em Melhoria de Sistemas de Saúde pelo Institute for Healthcare Improvement. Entrou no corpo clínico do hospital em 2015, coordenou a equipe de melhoria durante a Fase 2 do Parto Adequado, com as ferramentas do IHI, e deixou o serviço em 2023.